Um relato sincero sobre o veganismo

Um relato sincero sobre o veganismo

Um relato sincero sobre o veganismo

Eu flerto com o veganismo todos os dias. A Silvia, a moça que traz diariamente a minha marmitinha vegana em casa sabe disso. O tio Zuckerberg também sabe, afinal minha timeline é recheada de discussões calorosas entre carnívoros e vegans, vídeos de cortar o coração e receitas que levam quinoa, biomassa de banana e linhaça.

Leio as discussões que beiram a brigas, salvo em meu computador todas as receitas vegans que me parecem apetitosas, às vezes me arrisco na cozinha e vez ou outra me permito um choque de realidade assistindo os vídeos que mostram as crueldades a que são submetidas milhares de vacas e frangos espalhadas por esse mundão de Deus. 

Me informo para caramba e agradeço todos os dias por atualmente estar morando em um lugar onde o veganismo e a alimentação saudável são valorizados. No restaurante por quilo da esquina eu encontro boas opções de alimentação vegans e orgânicas. E cara, isso facilita infinitamente a minha vida.

Vivo meu processo de transição quietinha. Não tomo partido. Sei o que me motiva e sei também o que torna essa mudança difícil para mim. Há dias em que me sinto feliz e orgulhosa. Há outros em que me permito degustar um hambúrguer, que muitas vezes vem com a culpa de acompanhamento. Tá tudo tranquilo. Eu to vivendo o meu processo e ele é meu e de mais ninguém.

Mas hoje, motivada não sei porquê, eu compartilhei em um grupo do facebook um artigo sobre a inauguração de um Açougue Vegano nos EUA. Isso mesmo, um açougue vegano, com todas as características arquitetônicas de um açougue tradicional, mas sem nenhum ingrediente de origem animal à venda. Todas as carnes vendidas por lá são feitas com seitan, um derivado da proteína do trigo. Cada tipo de carne recebe um tempero diferente e é preparada de forma exclusiva, proporcionando diferentes texturas e sabores.

Polêmica! Mas é claro! Que inocência da minha parte achar que eu publicaria um artigo que tem as palavras “Açougue” e “Vegano” na mesma frase e as pessoas não irão manifestar sua admiração ou repúdio pela inciativa. 

Aquela chuva de notificações no meu post me deixaram louca de vontade de falar o que se passa na intimidade do meu processo de transição para o veganismo. Mas sabe qual é o lance. Falar sobre veganismo é complicado pra caramba. A questão não pode ser simplificada numa discussão pobre que se resuma a:

“Seu monstro carnívoro assassino sem compaixão pelos animais” X  “Como carne pois estou no topo da cadeia alimentar e preciso de proteína animal para sobreviver, mas acho bacon uma delicia seu vegan chato”

Sim, durante muito tempo da nossa evolução, nós precisamos da carne para sobreviver. Nos primórdios da existência humana, antes de aprendermos a arte do cultivo, a nossa principal fonte de subsistência foi a caça. E mesmo sendo onívoros, comer a carne de outros animais foi o que permitiu nossa espécie chegar onde chegou. Isso teve consequências genéticas ao passar de gerações. Aprendemos a degustar outros animais e nosso paladar se tornou perito nesses sabores.

Como consequência disso toda a história da gastronomia mundial se fez a partir de cortes de carne, aves e pescados, isso sem falar em leites e ovos. Soma-se a isso a carga emocional atribuída ao ato social de nos alimentarmos juntos. Os escravos sentavam juntos para comer restos de porcos com feijão e hoje, nas tardes de sábado, continuamos a fazer o mesmo. É o churrasco em família. É a ceia de Natal. É o macarrão à bolonhesa na casa da avó.

Construímos toda a nossa cultura gastronômica a partir de animais mortos. França. Itália. Japão. Portugal. Brasil. Argentina

Infeliz e felizmente nós evoluímos. Infelizmente evoluímos e criamos uma industria louca e masoquista em torno da alimentação, que transformou a tortura e a morte em seus produtos. Felizmente evoluímos e percebemos o quão doido é isso que estamos fazendo e que não, não precisamos mais nos alimentar de carne. Antes precisávamos. Agora não mais. Hoje temos conhecimento e técnicas o suficiente para não dependermos mais dos animais para nada. Não precisamos mais gastar milhões e milhões de litros de água com a pecuária. Não precisamos mais devastar quilômetros e quilômetros de terra para plantar soja que será utilizada como ração para o gado. Não precisamos mais matar e torturar. Não precisamos.

Mas ainda dependemos da cultura. E uma cultura não se rompe facilmente. Culturas familiares e empresariais são difíceis de romper, quiça uma cultura de um hábito fisiológico mundial. 

Por isso você, vegano (e eu, uma resistente aspirante) come feijoada com beterraba e cenoura. Come hambúrguer de quinoa. Como almôndega de soja. Porque toda a sua programação precisa identificar algo familiar. E é por isso que você carnívoro torce o nariz quando te oferecem uma feijoada vegana! Por que vamos falar a verdade, aquilo não é feijoda. E cada célula do seu corpo espera o sabor da gordura do porco enquanto morde um suculento funghi.

O veganismo faz parte de uma nova Era. E junto com toda nova era, precisa emergir uma nova cultura. Um nova cultura gastronômica. Uma cozinha nova e criativa, que se abra para o novo e para as possibilidades. Que não dependa mais dos pratos tradicionais que levam carne para dar nomes aos conteúdos de seu cardápio. 

Essa nova Era ta chegando. Estamos em transição e precisamos ir com calma. Esbravejar e impor só cria separação. A empatia é ingrediente fundamental, tanto de um lado quanto do outro.

Seguimos caminhando, por isso se você quiser comer carne vegetal como alternativa, eu acho isso um lindo começo!

[Crédito da Foto: Brooke Lark]

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