Estamos indo para o caminho sem volta da fragmentação?

Estamos indo para o caminho sem volta da fragmentação?

Estamos indo para o caminho sem volta da fragmentação?

Eu tenho o péssimo hábito de ler comentários. Eu leio comentários dos vídeos do Youtube, leio comentários de todo tipo de postagem no Facebook, mas os meus preferidos são os comentários dos artigos e textos no qual o autor expressa firmemente a sua opinião.

Eu sou uma entusiasta do debate saudável e muito de quem eu sou hoje é resultado da riqueza das diferentes opiniões que eu colhi durante a minha vida. Talvez esse tenha sido um dos motivos de eu escolher trabalhar com pessoas, afinal eu vejo muita riqueza na diversidade. Talvez seja por isso que um dos meus filmes favoritos é The Sunset Limited. E talvez seja por isso que ando sofrendo tanto com tudo o que eu ando lendo nas redes sociais.

Porque, a grande maioria dos debates de hoje não tem nada de saudável. E talvez por isso ler comentários na Internet, que antes era apenas um hábito, diria até que era um bom habito, hoje tenha se tornado um “péssimo” hábito que tem feito tanto mal para a minha saúde emocional.

CORTA PARA O ANO DE 2010

Eu tive o previlégio de poder conhecer um estudo realizado pela Monitor (do grupo Delloite) que, a partir do estudo de uma série de tendências do zeitgeist da nossa época, desenhava 4 possíveis cenários futuros para o Brasil e o mundo no ano de 2030. Como será o nosso futuro? Quais valores estaremos vivendo daqui há 20 anos? De que forma nossa economia, política, consumo, tecnologia e relações irião evoluir? Em que mundo viveremos amanhã?

Dentre os 4 cenários da pesquisa, dois deles me pareceram os mais prováveis e aqui eu compartilho um fragmento de cada um deles com vocês:

Cenário 1: Estamos juntos. Valores de liberdade e igualdade emergem. Abre-se espaço para discussões importantes em nossa sociedade, como defesas de minorias. Segue-se uma transição de valores tradicionais para valores seculares. Movimentos de co-criação e co-construção se intensificam, criando novos modelos de trabalhos e economia. Somos belos na aceitação de nossos valores, culturas e experiências. Oferecemos um olhar mais cuidadoso e ativo na preservação de nossos recursos naturais.

Cenário 2: Estamos sós. Múltiplas tribos tem a sua própria visão de mundo e essas visões não se parecem, não se conversam, não se reconhecem. Isso se reflete em discursos inflamados e na geração de ainda mais violência. Somos uma sociedade dissonante, torre de babel de crenças, valores e culturas. É um mundo de poucos. Poucos recursos naturais, pouco consenso entre as pessoas, poucas oportunidades.

O mundo está mudando. E eu acredito que está mudando para melhor. Eu já falei em outro texto que o Brasil particularmente está numa fase de transição de valores e que todos os movimentos que estamos presenciando (manifestações, feminismo, defesas de minorias) são sinais da nossa transição.

Mas volto para os comentários. E isso me dá medo. E cada comentário que eu leio leva um tiquinho da minha esperança junto de si. Parece que estamos nos transformando em fragmentos cada vez menores da nossa realidade parcial e limitada.

Dos posicionamentos políticos e temas polêmicos às pequenas opiniões cotidianas estamos sempre antagonizando.

É a feminista liberal que discursa contra a feminista radical que discursa contra a feminista interseccional que discursa contra o machismo que discursa contra o feminismo.

É o vegano que discursa contra o vegetariano que discursa contra o carnívoro que discursa que o mundo está ficando chato.

É a mãe que fez parto normal e humanizado que discursa contra a mãe que fez cesária que devolve dizendo que ela não é menos mãe por isso.

É o grupo que aplaude a mea culpa da Fernanda Torres contra o grupo que acha um absurdo a retomada do seu posicionamento.

São os entusiastas da carta do Mark Manson contra o aqueles que se posicionaram contra seus argumentos.

Não compartilhamos, fragmentamos. Não dialogamos, discursamos. E o pior, o nosso discurso está carregando de ódio e separação.

Somos todas mulheres. Somos todas mães. Somos todos brasileiros. Somos todos seres humanos. Somos todos um. E isso precisa sair da hashtag e ir para o mundo real.

Uni-vos! Visão de mundo, sempre teremos a nossa, mas podemos aprender a dialogar de forma não-violenta, significativa, construtiva e bem humorada.

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Depois de compartilhar esse texto na minha timeline pessoal, eu tive a oportunidade de dialogar de forma não-violenta, significativa e construtiva com inúmeras pessoas que me trouxeram incríveis referências para complementar esse assunto. Se você tiver interesse em se aprofundar, deixo aqui duas delas:

1. Texto do Jornalista Pedro Burgos: Goodbye, comments. Hello, “conversations”

2. Coletânea Papo de Homem – Como cultivar melhores conversas na Web

 

[Crédito da Foto: Morgana Bartolomei]

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